Há cidades feitas para o casamento fácil — uma linha reta da porta da igreja à mesa da recepção, os mesmos trinta convidados que frequentam os casamentos uns dos outros há uma década, uma banda que conhece o repertório. O Rio não é uma delas. Um casamento no Rio é um evento de quatro dias, não uma cerimônia de quatro horas. Você chega numa quinta-feira; há um jantar no Aprazível na sexta, um drinque de boas-vindas no bar do Copacabana Palace ao pôr do sol, uma cerimônia em algum lugar improvável no sábado, um longo almoço de domingo na praia e um café da manhã de despedida na segunda, para o qual todo mundo que importa ainda fica. A cidade faz isso por uma razão. O carioca entende que o casamento não é a cerimônia; o casamento é o fim de semana.
O que segue é um guia para casar ao longo de um fim de semana no Rio, não em um único dia. Foi escrito para casais que já tomaram a decisão — isto não é um manifesto sobre por que o Rio; esse argumento se faz sozinho na primeira vez que você assiste a uma cerimônia no jardim do Parque Lage, com o Corcovado assistindo também. O resto é logística, e a logística no Rio é mais complexa do que em uma capital europeia ou em uma ilha do Caribe. É para isso que serve um guia.
I. Os espaços, em cinco categorias
Não faltam ao Rio lugares para casar. O problema é o oposto — um excesso de cenários cinematográficos, cada um com seu calendário de autorizações, sua capacidade, sua política própria. Os cinco cenários abaixo cobrem a esmagadora maioria dos casamentos que já vi nesta cidade.
Parque Lage. O espaço de cerimônia civil mais requisitado da Zona Sul. Um palacete de inspiração italiana (início do século XX, Mario Vodret) no terreno do que hoje é a Escola de Artes Visuais, com um pátio central de colunatas construído em torno de uma única piscina retangular. O Corcovado é visível diretamente acima do pátio. A cerimônia acontece à beira da piscina, a céu aberto; a recepção sobe para as galerias do primeiro andar, onde as paredes exibem trabalhos dos alunos da escola. Capacidade: cerca de 180 para uma recepção com convidados sentados, 350 em pé. Eventos exigem autorização do Instituto Municipal de Turismo e costumam ser reservados com seis a nove meses de antecedência. Há uma lista publicada de bufês credenciados; seu cerimonialista terá trabalhado com a maioria deles.
O Copacabana Palace. O grande hotel da cidade, com cem anos de história, um salão de festas que viu quase todos os casamentos que importaram no Rio do século XX. Três salões principais: o Salão Nobre (cerca de 220 m², lustres em escala de Versalhes, capacidade para 200 sentados); o Salão Golden Room (maior, art déco, com um pequeno palco em uma das extremidades); e a piscina — o pátio da piscina propriamente dito, para casais que querem uma recepção ao ar livre sob as palmeiras, com a fachada do hotel iluminada ao fundo. O Palace produz tudo — bufê, flores, equipe — com suas equipes da casa, que é o caminho fácil e, para uma cerimônia cinco estrelas em Copacabana, o que a maioria dos casais escolhe. Capacidade no deck da piscina: 400 sentados, 600 em pé. Reserve com doze meses de antecedência.
O Jardim Botânico. Para casais que querem que a cerimônia em si seja a imagem — a aleia de palmeiras-imperiais na entrada do jardim, com duzentos metros de extensão e árvores de noventa anos —, um casamento no Jardim Botânico é o sonho de qualquer diretor de fotografia. É também o local mais regulado desta lista: é preciso autorização do Instituto de Pesquisas Jardim Botânico, a capacidade é limitada a cerca de 120 pessoas pelas regras atuais e a lista de fornecedores credenciados é curta. O jardim fecha para visitantes às 17h, e um casamento sob a aleia de palmeiras costuma começar às 16h30 e terminar às 18h30, com a recepção seguindo para o Parque Lage, a poucos minutos de carro, ou para uma residência particular. Se a cerimônia é a prioridade, a aleia não tem igual na América do Sul.
Um salão de festas centenário. Ainda a primeira ligação.
O Copacabana Palace recebeu casamentos ao longo da era de ouro da monarquia brasileira no exílio, do regime militar, do plano de estabilização, das Olimpíadas, da pandemia e da década seguinte. A equipe da casa já rodou quinhentos deles de cabeça antes do seu. Seu cerimonialista tratará com um único contato de produção — peça a linha direta do diretor de banquetes e insista em uma última vistoria na manhã do evento.
II. Mais dois espaços que você deveria conhecer
O rooftop do Fasano. O Hotel Fasano Ipanema tem um pequeno terraço na cobertura, com piscina de borda infinita sobre a praia e vista que corre do Arpoador ao Leblon. Não é um espaço para casamentos de grande formato — a capacidade confortável máxima é de cerca de 90 pessoas —, mas para um jantar de doze pessoas sentadas a uma única mesa comprida, com o sol se pondo atrás do morro Dois Irmãos, o Fasano é o melhor endereço para jantar da cidade. É o salão que reservo para jantares de boas-vindas, não para o casamento em si, mas é também o único rooftop do Rio que deixa você ficar com ele inteiro.
A casa do Joá. Um casamento de doze, trinta ou sessenta convidados pode ser realizado em uma residência particular, e as vilas à beira do penhasco no Joá — esta casa entre elas — formam uma lista curta de opções. Uma cerimônia no terraço da piscina de borda infinita com o Atlântico ao fundo; um jantar servido na sala de jantar para doze, ou no deck da piscina para trinta; uma madrugada no bar da casa. Casamentos em vila não são baratos — a logística é privada, o serviço é um para um, as autorizações ficam por sua conta —, mas para um casamento muito pequeno e muito discreto, não têm igual em controle e privacidade. Fotógrafos amam o Joá pela razão pela qual o bairro existe: o penhasco, o mar, o fato de que o oceano é a parede atrás da cerimônia.
Búzios. Um destino dentro do destino — a vila de pescadores a duas horas e meia subindo o litoral, tornada famosa por Brigitte Bardot em 1964 e hoje uma cidade de praia de 25 mil habitantes que se especializou em pequenos casamentos privados. As pousadas da Praia da Azeda, os hotéis-boutique da Orla Bardot, uma cerimônia na praia ao entardecer com um jantar servido que avança para o salão principal. Muitos dos meus casais que já vêm ao Rio para um fim de semana acrescentam um casamento em Búzios como o ponto médio da viagem — uma abertura de lua de mel de três dias, por assim dizer. Veja a matéria "Além do Rio" no Jornal para saber mais sobre como aproveitar a cidade.
“O casamento não é a cerimônia; o casamento é o fim de semana.”
III. Estação, data, clima
Os melhores meses para casar no Rio são maio, junho, julho, agosto e setembro — o inverno e a primavera secos do hemisfério sul. Os dias ficam entre 22 e 25 graus; as noites caem para uns agradáveis dezoito. Chuva é rara, e uma cerimônia ao ar livre é uma aposta mais segura do que seria em janeiro. Outubro e novembro são os meses de transição — mais quentes, com chuva no fim da tarde, ainda muito viáveis para uma cerimônia num sábado de manhã. Março e abril são a cauda do verão — quentes, úmidos, com tempestades ocasionais, mas também confiavelmente fotogênicos.
A única janela a evitar são as duas primeiras semanas de janeiro — a cidade está se recuperando do Réveillon, metade das equipes está de férias e os hotéis estão reservados com três anos de antecedência, a tarifas mais altas. A semana de Carnaval (variável; em geral no fim de fevereiro ou início de março) é a outra janela proibida: a cidade não está vazia, está ocupada de outro jeito, e os hotéis da Zona Sul operam em capacidade máxima para um evento diferente.
Um casamento em dia de semana — quarta ou quinta — economiza de 20% a 30% no aluguel do espaço e deixa os convidados em clima mais festivo do que num sábado, quando a própria cidade também disputa a atenção deles. Recomendo uma quinta ou sexta-feira para um casamento no Rio com menos de 120 convidados.
IV. A papelada, com franqueza
Um casamento civil com validade legal no Brasil está aberto a estrangeiros, e o registro civil do Rio (o Cartório de Registro Civil das Pessoas Naturais) casa dois não residentes após uma série de trâmites prévios. A papelada não é rápida nem intuitiva: uma certidão consular de inexistência de impedimento do país de origem de cada um, certidão de nascimento traduzida e apostilada, uma entrevista pessoal com o oficial do cartório, um edital público de trinta dias. Tempo total decorrido: cerca de seis semanas, supondo que tudo chegue no prazo. Um casamento civil brasileiro é reconhecido na maioria das jurisdições pela Convenção da Haia.
A maioria dos meus casais estrangeiros não faz isso. O padrão mais comum é uma cerimônia civil no país de origem — diante de um juiz ou oficial de registro na sua própria cidade, uma semana antes ou depois da viagem ao Brasil — e uma cerimônia simbólica no Rio: conduzida por um celebrante ou por um amigo, sem efeito legal e, portanto, livre da papelada. Os convidados nunca percebem a diferença, e o peso emocional da cerimônia é o mesmo. Se a cerimônia importa por razões de fé — uma missa nupcial católica, digamos, na Capela Santo Antônio, em Copacabana —, a paróquia coordena com a sua igreja de origem e o registro civil brasileiro não é necessário.
Uma pequena nota sobre nomes: a convenção brasileira é a noiva adotar o sobrenome do marido, ou unir os dois, e nada disso é obrigatório. Casais internacionais podem manter os nomes com que chegam.
V. A equipe
Um casamento no Rio deve ser conduzido por um cerimonialista local — não por um planner sediado no seu país, pelo Zoom. O ecossistema de fornecedores desta cidade é pequeno, movido a relacionamentos e opaco para quem vem de fora; um cerimonialista que fez cinquenta casamentos aqui nos últimos cinco anos vai conseguir um florista melhor por um preço melhor e, o que é crítico, vai acertar o dossiê de autorizações, certidões e licenças. Há talvez oito cerimonialistas na cidade em cujo portfólio e julgamento eu confio; encaminhamos a maioria dos casais para dois.
Fotografia no Rio é uma disciplina especializada por causa da luz. Os melhores fotógrafos de casamento da cidade trabalham na hora carioca — os quarenta minutos antes do pôr do sol — e contam com assistentes que sabem qual pedra do Arpoador estará livre às 17h40, qual terraço do Palace pega o dourado, qual canto do Parque Lage não tem turista no quadro. Espere pagar por um fotógrafo sênior por 12 horas aproximadamente o custo de um bom fotógrafo de casamento europeu por 10 — o trabalho, a meu ver, está à altura de qualquer um na Europa.
Música. A opção séria é samba e choro ao vivo — um pequeno conjunto acústico para a cerimônia e o coquetel, uma banda maior para a recepção. Para uma cerimônia ao pôr do sol, um único violonista de bossa nova e uma voz cobrindo Jobim e Toquinho são a imagem. Para a recepção, uma banda de samba de dez integrantes vinda de uma das escolas de samba da Zona Norte (Mangueira, Portela, Salgueiro) carrega a noite até as cinco da manhã, se você deixar. DJs são usados no Rio principalmente para o set da madrugada, depois da 1h; a primeira metade da recepção é quase sempre ao vivo.
Comida. Três bufês sérios cobrem a maioria dos casamentos sérios desta cidade — Mariana Laufer Events, Zest Gastronomia e o braço de banquetes do próprio Copacabana Palace. Seu cerimonialista terá opiniões; confie nelas. A comida em um casamento no Rio costuma ser servida como uma longa sequência de pequenos pratos ao longo do coquetel e um jantar empratado de três tempos, não como buffet de mesa — o buffet é uma preferência paulista.
VI. Um fim de semana, não um dia
Os melhores casamentos que já vi no Rio usaram o fim de semana inteiro. Quinta: drinques de boas-vindas no bar da piscina do Copacabana Palace para os convidados que já chegaram; um pequeno jantar de família no Olympe ou no Oteque para o núcleo próximo. Sexta: um dia de praia em Ipanema, no Posto 9 — reserve cadeiras pelo hotel —, com almoço nos quiosques do Arpoador; um jantar de boas-vindas no Aprazível, em Santa Teresa, com a baía lá embaixo e um trio de choro ao vivo. Sábado: a cerimônia e a recepção. Domingo: um longo almoço no Sud O Pássaro Verde ou no Palace, seguido de uma caminhada do Leblon ao Arpoador na hora carioca para as últimas fotos. Segunda: um café da manhã de despedida na casa ou no hotel para os convidados que ainda estiverem por aqui.
O custo de estender um casamento desse jeito é quase inteiramente função dos lugares que você usa para os eventos periféricos — e, no Rio, os endereços periféricos (o bar da piscina do Palace, o Aprazível, os quiosques do Arpoador) são baratos para padrões internacionais. Um fim de semana de casamento de quatro dias no Rio para 80 convidados, com cerimônia no Parque Lage e recepção no Palace, sai por menos do que um casamento de um dia da mesma escala em Londres ou Nova York.
VII. O que a casa pode fazer
A vila Joá Rio é uma casa de cinco suítes; pode hospedar a comitiva do casamento, a família próxima ou o próprio casal ao longo dos dias que antecedem o casamento e da lua de mel. A piscina de borda infinita na beira do penhasco, com o Atlântico se abrindo até o horizonte, é também um pequeno cenário de cerimônia — trinta convidados no máximo, mas uma cerimônia aqui aparece, na fotografia, como algo saído de um ensaio da Conde Nast. Nosso concierge não planeja casamentos — o ecossistema é especializado, como dito —, mas temos parceria com três dos melhores cerimonialistas da cidade e podemos fazer as apresentações para casais que consideram a casa como cenário ou como residência para o fim de semana.
A casa também fica dentro do Joá: a Beverly Hills carioca, um condomínio fechado com segurança 24 horas, uma única via de acesso com portaria e a praia mais privada da cidade — a Praia da Joatinga, alcançada a pé por uma passagem talhada na rocha. Para casais que valorizam privacidade, o bairro não é uma concessão; é a razão.
VIII. As fotografias que você vai guardar
Depois de casamentos suficientes, você percebe um padrão em quais fotos acabam emolduradas na estante da sala. A imagem de casamento no Rio que dura raramente é a cerimônia — a cerimônia parece uma cerimônia, seja em Nova York, seja na Provence. A imagem que dura é o momento ao redor da cerimônia: a noiva numa sacada do Palace antes do cortejo, a baía atrás dela por um par de portas francesas abertas; o casal na escadaria do Parque Lage com o Corcovado diretamente acima deles, nenhum dos dois olhando para a câmera; o almoço de domingo em Ipanema, um grupo de vinte a uma mesa comprida na frente de um quiosque, o sol se pondo atrás do Dois Irmãos, as taças de vinho pegando a luz. Um bom fotógrafo do Rio está caçando essas imagens. Deixe que cace.
Um casamento no Rio faz um argumento discreto: o de que um casamento é melhor como fim de semana do que como um dia, o de que a cidade faz parte do trabalho por você, se você deixar, e o de que um domingo longo e sem pressa à mesa vale mais, no fim, do que uma primeira dança perfeita. Case aqui e você terá dito sim duas vezes — uma à pessoa, outra a um jeito de ser um casal, mundo afora, a uma mesa comprida, por uma tarde inteira. Achamos que é o sim certo.