Há uma praia abaixo do Joá em que a maior parte do Rio nunca pisou. Não tem quiosque, não tem posto de salva-vidas a que se chegue de carro, não tem nome no letreiro do ônibus. Durante metade de cada dia, ela simplesmente não existe — o mar toma a areia de volta duas vezes por dia e a devolve segundo o seu próprio horário. A Praia da Joatinga é a praia mais escondida da cidade, e a que mais recompensa quem chega até ela, e o propósito deste guia é levar você lá para baixo e — igualmente importante — trazê-lo de volta para cima.
Ela fica no trecho de costa entre São Conrado e a Barra da Tijuca, ao pé dos costões residenciais do Joá. Um crescente de areia clara com menos de duzentos metros de extensão, água límpida e um paredão de granito atrás — o tipo de enseada que seria famosa em qualquer lugar onde fosse fácil estacionar. Não é fácil estacionar. Essa é toda a história de por que ela continua bonita.
Como chegar — a portaria, as escadas, as pedras
Não há via pública até a areia. O acesso se faz por um condomínio fechado particular — o Condomínio da Joatinga —, na Estrada do Joá, a via litorânea que liga São Conrado à Barra. Isso surpreende as pessoas, e não deve ser confundido com uma barreira: as praias brasileiras são públicas por lei, e o condomínio deixa os visitantes passarem. Mas significa, sim, que a chegada tem um procedimento.
Você chega à portaria pela Estrada do Joá e informa o seu nome na guarita — o posto de segurança. Uma vez lá dentro, segue pelas ruas internas até a escadaria que começa a descida, e dali em diante o caminho vira uma sequência de degraus, uma curta rampa de cimento e um trecho final de pedras que é preciso galgar para chegar à areia. É uma travessia curta, não uma trilha, mas é de verdade: use calçado fechado e com boa aderência, não chinelos. O apoio dos pés nas pedras — molhadas, irregulares, às vezes escorregadias pelos respingos — é o perigo do dia a dia aqui, mais do que o caminho em si.
- Entrada: pelo Condomínio da Joatinga, fechado, na Estrada do Joá. Informe o seu nome na guarita.
- A descida: ruas internas, depois uma escadaria, uma rampa de cimento e um trecho sobre as pedras. Calçado fechado e com boa aderência.
- Maré: vá na maré baixa — de preferência 0,5 m ou menos. Na maré alta, não há praia.
- Horário: pela manhã. No fim da tarde, o costão cobre a areia de sombra.
- Estacionamento: um pequeno pátio dentro do condomínio; limitado e muitas vezes lotado já no meio da manhã aos fins de semana. Chegue por volta das 8h.
- Leve: água e comida — não há quiosques. Leve o seu lixo de volta com você.
A maré não é um detalhe — é a regra
Tudo em uma visita à Joatinga gira em torno da maré, e este é o parágrafo para ler duas vezes. A praia é uma faixa estreita de areia na base de um costão. Na maré alta, as ondas avançam até o fundo e a cobrem — simplesmente não há praia e, pior, a água empurra você contra as pedras sem lugar para onde recuar. Já houve quem precisasse de ajuda para voltar por cima das pedras quando a ondulação subiu mais rápido do que se esperava. O mar aqui pode mudar em quinze minutos.
Portanto: consulte uma tábua de marés antes de sair e planeje a sua janela em torno da maré baixa. Uma maré de cerca de meio metro ou menos é o que você quer; entre na vazante e saia das pedras antes da enchente. Isso não é excesso de cautela. É o único conhecimento local que separa uma manhã perfeita na Joatinga de uma genuinamente perigosa. Todo relato confiável sobre a praia diz a mesma coisa, e nós repetimos: não vá na maré alta.
Grutas, e uma piscina natural.
De um lado, o costão se abre em grutas escavadas pelo mar; do outro, num dia calmo, as pedras guardam uma piscina natural rasa que as famílias usam com crianças pequenas. Entre elas está a areia — clara, fina e, quando a maré é generosa, larga o bastante para a turma surpreendentemente fiel de surfistas, fotógrafos e cariocas bem informados que a tratam como o seu trecho particular.
Surfar na Joatinga
É um pico de surfe de verdade, e fora do radar. A onda é um beach break: ondas curtas, de força média, geralmente na faixa de meio metro a um metro, quebrando melhor com ondulação de leste e vento nordeste por trás. É amigável o bastante para um iniciante competente e popular entre os bodyboarders. O porém é o mesmo de todo o resto aqui — a entrada e a saída são pelas pedras, então você cronometra a entrada entre as séries e presta atenção onde pisa. Quando a ondulação cresce, a onda perde o desenho e as pedras deixam de ser charmosas.
Uma nota sobre o público, e a cortesia
A Joatinga atrai surfistas, uma turma de praia jovem e bonita e — por causa de onde fica — gente que dá valor a não ser notada. A praia continua encantadora justamente porque é difícil de alcançar e porque as pessoas que a usam a tratam bem. Você está atravessando o condomínio fechado onde outras pessoas moram para chegar a uma praia pública: informe o seu nome com gentileza, estacione onde indicarem, mantenha o barulho baixo e leve embora tudo o que trouxer. Não há lixeiras nem funcionários. A praia só é tão limpa quanto o último visitante a deixou.
Se a maré estiver contra você
Em algumas manhãs a maré simplesmente não coopera, e não vale a pena correr o risco. Quando isso acontece, a costa em torno do Joá oferece opções a poucos minutos de carro. São Conrado, logo a leste, é uma praia ampla, aberta e convencional — aquela onde as asas-delta descem da Pedra Bonita, e o lugar mais fácil da região para passar uma tarde tranquila na areia. O Mirante do Joá, o mirante público e gratuito na Estrada do Joá, entrega o cartão-postal de toda a costa — São Conrado, a Pedra da Gávea, o Morro Dois Irmãos — sem um único degrau até a água. Nenhum dos dois é a Joatinga. Mas a Joatinga pode esperar. Volte na maré certa.
Os costões acima desta praia são a razão de ser do próprio bairro. Como o Joá veio a ser construído sobre eles — e quem mora lá hoje — é o restante do guia.